Vendo-me

Setembro 19, 2007

Pense rápido: quanto vale a sua vida? Você não soube responder, soube? Pode parecer bobo e tal, mas aposto que, durante sua vida, você já se deparou com perguntas do tipo “Se eu te desse 200 milhões, tu me darias tua vida?”. Eu não venderia a minha vida por esse preço. Nem fodendo. Você venderia?

Pode parecer algo superficial mesmo, mas isso vem me incomodando de uns tempos pra cá. Quando nascemos, a primeira coisa que fazem é vender nossa vida. “Meu filho vai ser rico, bem-sucedido”. Porra, CADÊ AQUELES 200 MILHÕES AGORA?! Já que venderam minha vida, DÁ PRA CÁ! Uma coisa que me intrigou muito foi quando ouvi uma história de um homem que chegava para um músico, após uma apresentação fenomenal, e dizia-lhe: “Eu daria minha vida para tocar como você!”; e, em seguida, o músico lhe respondia: “Pois é… Eu dei a minha”. E, de fato, quem chegou lá não é porque era bom, mas porque dedicou parte de sua vida a isso; os 200 milhões só foram substituídos por outra coisa, foram adiados. Num raciocínio lógico: muitos querem ser jogadores de futebol; por quê? Jogadores de futebol são bem pagos, famosos e desfrutam de todas as coisas que a grande maioria das pessoas gostaria de poder desfrutar; jogadores de futebol têm 200 milhões. Como eles conseguiram? Eles venderam suas vidas, em treinos e coisas do tipo, por esses 200 milhões. Mas, se lhes perguntassem se eles desejariam vender a vida deles por esse dinheiro, a resposta também seria não.

Viver é o quê? Cabe a cada um sua própria definição para vida, da mesma forma como lhes cabe definir suas prioridades. Dinheiro é essencial à vida? Quanto vale seu tempo? Você é o melhor, mas nem sabe que é; você nem sabe quem é. Sua alma é esses 200 milhões, eles estão em sua posse. Você vai gastá-los para comprar a vida de outra pessoa, ou vai querer fazer a sua?

E aí, quer fazer negócio?


O sentido da vida

Setembro 14, 2007

— Você sabe — ele disse —, a vida tem dessas coisas.

A mulher o havia pegado com a amante na cama.

— Seu cachorro!
— Cachorro não!
— Como pôde?
— Lamento, mas relacionamentos não são feitos para durar. Já estou pulando fora desse também.

Havia sido pego pela amante agora.

— Quê?

Traído pela própria boca.

— Seu fodido! Cachorro!

— Cachorro não!

As duas o abandonaram.

Ficou sentado na cama, olhando para a janela. Acendeu um cigarro, deu uma tragada profunda. Sabia que, no fundo, estava certo: relacionamentos não eram feitos para durar. A vida era curta, ele precisava aproveitar. Às vezes, não via sentido algum nisso, mas havia lido em algum lugar e resolveu usar.

Iniciara um novo estilo de vida, um personagem. “Aquele safado está me devendo uma grana”, diziam os bêbados. Entendi por que adotara aquela frase. Havia encontrado uma desculpa, uma desculpa para viver. “É um filho da puta, mas tem estilo”, disse-me um garçom.

Pulava de casa em casa. Não passava duas noites com a mesma mulher. Ficara conhecido nos bares — mais por dever dinheiro. Um fanfarrão. Acho que se enxergava com dezoito anos novamente. Topei com ele por alguns bares da vida. Conversamos uma única vez:

— Me empresta uma grana?
— Vai te fuder.

Levantou e foi embora. Nunca mais o vi.

Apagou o cigarro. Ficou olhando mais uns segundos para a janela. Levantou da cama e foi até lá. Procurou mais um cigarro no bolso de trás. Não estava usando calças.

Pulou pela janela do 23º andar. Não estava se dando bem consigo mesmo. E, você sabe, relacionamentos não são feitos para durar.

O corpo ainda ficou lá por uns minutos até a emergência chegar.

Tive de admitir, o filho da puta tinha mesmo estilo.


Fogo, poesia e um cara derretendo.

Agosto 31, 2007

Aquela mesa era a predileta das grandes inspirações. O uísque era uma marca barata mas servia só pra ir molhando o lábio e fazendo ficar fora si. Adorava esse estado. A vida mudava e seu humor também.
Já estava no terceiro capítulo e o calor estava aumentando. Seria efeito do uísque ? Um forte cheiro de fumaça também pairava no ar. Seu romance se passava em Londres e ele estava achando aquilo tudo muito bom.

Olhou ao seu redor, o silêncio era total. Não havia mais ninguém no bar e mal dava para enxergar a porta quando, nesse momento, apareceu um homem que mais parecia um bombeiro. Era um bombeiro.

- Senhor, vamos cair fora daqui pois o bar está pegando fogo.
- Meu romance também. Daqui a pouco Madalena se suicida. Não posso parar agora.
- Senhor, isso é uma ordem. Tenho que tirá-lo daqui.
- Calma, calma…O filho dela nunca vai descobrir o motivo da mãe ter se atirado do primeiro andar do prédio e morrer eletrocutada.
- Bem, eu estou indo. Está muito quente aqui dentro e o fogo já está pegando na sua mesa.
- Vou terminar aqui e já vou. Por favor, me alcance mais uma dose de uísque. Não sei onde o garçom se meteu.
- Ok. Vai sem gelo pois o mesmo já derreteu.
- Obrigado. Pode apagar a luz. Não enxergo mais nada no meio dessa fumaça. Só a tragédia anunciada nesses pedaços de papéis.

Nisso o fogo foi tomando conta de tudo. Os capítulos queimaram e o poeta derreteu em meio ao seu romance londrino.


Carta a Bob Dylan

Agosto 29, 2007

Prezado Bob,

Eu não quero escrever o hino de uma geração, até mesmo porque não sei se quero fazer parte de uma geração. Não tenho a ambição de mudar o mundo, de ser especial. Olhe para eles, Bob: eles andam por aí, eles cantam suas músicas, cara. Eles nem sabem o que elas significam. Não estou dizendo que elas são ruins, espero que você não me entenda mal. Eu não entendo suas músicas, sinto que elas não são feitas para serem entendidas, mas para serem sentidas. Mas, eles… Eles são hipócritas.

Sabe, Bob, o homem fez a música e a música o libertou. O rock fora cantado por milhões. O rock os libertou e os escravizou novamente. Eles tinham o poder nas mãos e tiveram que comprá-lo de novo quando o jogaram nas suas caras. Eles não sabiam o que cantavam, Bob. O mundo deu errado. O homem voltou a ser escravo, escravo de si mesmo. Diga-me, meu amigo: quanto vale a liberdade? E a sinceridade? Quanto vale uma vida? Eles venderam suas vidas, mas não receberam nada em troca.

“Você se vendeu”, eles lhe disseram. Você e aquela estúpida guitarra, cara. Você fodeu tudo. Você atirou a mudança na cara deles, quando eles não estavam prontos para isso. Não quero ser como você, Bob. Não quero forçar ninguém a mudar, não vou construir uma escada às estrelas.

Não quero morrer sentado a frente de uma máquina de escrever, batendo e batendo nas teclas. “Essa máquina estava quente, han?”, eles me diriam. As palavras simplesmente andavam, cara. Elas não tinham sentido, não tinham rumo. Nunca consegui dar rumo ao que escrevi. Eu sou medíocre, Bob, não sou como você. Oh, merda. Que você continue eternamente jovem, meu velho, e que os ventos soprem a seu favor. Como vão as coisas?

seu,
Bob Dylan


Sem gelo, por favor.

Agosto 28, 2007

Era um bom rapaz – eles diziam –, mas nunca mais foi o mesmo depois que descobriu que sua mulher o traía com seu melhor amigo. Era muito orgulhoso, não podia engolir aquilo. Enlouqueceu. Não botava mais o pé fora de casa, e, quando o fazia, ia, no máximo, até a locadora de filmes na esquina. Vivia com medo da verdade.

Um dia, sumiu. Ninguém o via já fazia duas semanas. O pessoal da locadora começou a achar que ele tivesse morrido. Passou trancado em casa, virava as madrugadas olhando-se no espelho falando algumas frases estranhas. Havia decidido: ele daria um fim àquilo. Fez um telefonema, pegou um pacote embaixo da cama e saiu apressado de casa.

Entrou num bar, foi em direção a uma mesa, onde seu amigo sentava.

- Olha cara, eu sei de tudo.
- Ô, cara! Quanto tempo! Tava preocupado. Senta aí. Garçom! Traz mais uma cerva!
- Não, cara. Eu sei de tudo. Eu vim aqui te matar.
- Ihh. Garçom, cancela a cerva!
- Por quê?
- Eu vou morrer, não quero pagar uma cerveja que não vou tomar, oras.
- Não, cara… Tu entendeste.
- Olha, eu sei… Eu sei… Mas, pensa bem: é isso que tu queres mesmo? Digo, tu vais pegar a arma e estourar minha cabeça. E depois?
- Vou caminhar pra fora do bar…
- Eu sei, mas, tu vais conseguir viver com a culpa?
- Depois eu me preocupo com isso.
- Cara, pensa bem. É como naquele filme… Como é mesmo o nome? Além da Morte! Não lembras? Com o Dustin Hoffman, cara! Ele mata o melhor amigo e o cara volta pra perseguir ele. O cara fica com altas assombrações e tal.
- Bom… ahn… Eu não tinha pensado por esse lado.
- Relaxa, cara. Tu vais te arrepender se fizeres isso. Falo isso pro teu próprio bem.
- É, talvez tu tenhas razão.
- Cara, afinal, eu sou teu melhor amigo ou não?
- Não! Digo, claro! Como tu duvidas disso?
- Então, cara, me dá um abraço aqui. Olha, to com um pouco de pressa, tenho que sair. Mas, foi bom te ver de novo. Vê se me liga.

Ficou observando seu melhor amigo saindo do bar. Colocou a mão no bolso do casaco e apalpou o pacote onde estava o revólver. É, talvez seu amigo estivesse certo mesmo. Chamou o garçom:

- Amigo…
- Fala, chefia.
- Tu conheces algum filme “Além da Morte”?
- Pô, meu velho. Nunca ouvi falar.
- É…
- Mais alguma coisa?
- Traz uma cerveja.

Ficou olhando para a saída do bar, pensativo.

- E olha que eu nem gostava do Dustin Hoffman…


O Sentido da Vida

Agosto 28, 2007

Temos teorias para tudo e as mais diversas pessoas de diferentes estilos e procedências para explicá-las. Mas quando se trata de uma teoria sobre o modo de viver a coisa complica. Complica até porque o tema é desconhecido sob muitos aspectos. E a gente nasce, cresce, vive e nem sabe direito, ou nem paramos pra pensar, o que viemos fazer por essas bandas. E, quando de repente, sumimos daqui sem saber se continuamos com a capacidade de pensar, se vamos fazer tudo de novo ou, simplesmente, desaparecemos de um mundo que milhões de pessoas nem sabiam que a gente estava aqui. Nem os vizinhos do nosso prédio sabem alguma coisa sobre nós.

É uma perigosa e total falta de interação. Pelo menos deveríamos saber se vale a pena o contato.

Mas nem isso fazemos. Não gosto dessa teoria que devemos nos enquadrar num determinado modelo para que sejamos “alguém na vida”. Alguém pra quem, eu pergunto?

Sinto que temos uma missão aqui na Terra, nessa vida. Mas não descobri ainda a minha. Talvez até tenha descoberto, mas tive medo de seguir essas trilha. Uma coisa eu tenho certeza: acordar cedo, sair para trabalhar, voltar para casa, ver TV, constituir família, ter filhos e netos, adquirir uma série de coisas materiais e pedir, como último desejo, que me arrumem direitinho no caixão com um sorriso nos lábios, certamente esse não sou eu.

Antes de mais nada, tenho que cuidar de mim, da minha satisfação de estar aqui nesse lugar chamado Terra e fazer o que minha formação e cultura me permitirem. E conhecer o maior número de pessoas possíveis. Isso eu gosto, ouvir música eu gosto, tocar um instrumento eu gosto, discutir assuntos eu gosto. Gosto de muitas coisas.

E aí? Quer ser meu amigo?


Assunto Fedorento

Agosto 26, 2007

Os primeiros ensaios começam na infância. E depois que a gente toma conta da situação e do controle a coisa começa a ficar engraçada. Engraçada para os autores e desagradável para quem está perto.

Falo da turma dos peidorreiros. Aquelas pessoas que, à mercê de sua vontade, contaminam redutos próximos do autor com um cheiro nada agradável. Diz o ditado que “peido é que nem filho: cada um só agüenta o seu”.

E a medida que as crianças vão crescendo,a turma e a concorrência aumenta. Os representantes escolares estão por toda a parte. Quem nunca freqüentou uma escola que, na sua classe, tinha seu representante ? As vezes até mais de um , fazendo aquela concorrência olfática em plena aula lotada.

Os barulhos eram seguidos dos mais diferentes sons, na medida em que o autor inventava e controlava os decibéis a serem largados. Tinha o tipo metralhadora, o social, o de salão, o “fffffffff” (que não fazia tanto barulho e de um poder de fogo bastante potente) e outros apelidos. Ensaiar o seu estilo as vezes custava uma borrada nas calças. Mas isso era só de vez em quando.

Até terminar o segundo grau, eu me lembro que tínhamos os representantes na escola e em cada sala. Orgulhosos, muitas vezes, dos seus feitos.

Já no tempo de faculdade, o movimento foi se esvaziando e em ambientes de trabalho é difícil achar um representante. Os peidorreiros passam, ao longo do tempo, seus momentos de euforia e prazer para uma total introspecção. Peidam sozinhos, no silêncio de seus lares, muitas vezes arriscam alguns na rua e param para sentir o efeito e ver se ainda estão em forma. Mas a coisa fica muito limitada ao seu íntimo. Embaixo das cobertas, com a devida constatação se foi ou não aquele dos tempos de colégio.

Enfim, um movimento forte e representativo na infância e na adolescência que se esvazia à medida que a idade avança. Formaram-se algumas comunidades no Orkut, o que dá uma certa esperança aos representantes.

O que não falta, e nunca vai acabar, é aquela risadinha sutil depois que o seu “grito” de liberdade foi lançado ao vento!