Aquela mesa era a predileta das grandes inspirações. O uísque era uma marca barata mas servia só pra ir molhando o lábio e fazendo ficar fora si. Adorava esse estado. A vida mudava e seu humor também.
Já estava no terceiro capítulo e o calor estava aumentando. Seria efeito do uísque ? Um forte cheiro de fumaça também pairava no ar. Seu romance se passava em Londres e ele estava achando aquilo tudo muito bom.
Olhou ao seu redor, o silêncio era total. Não havia mais ninguém no bar e mal dava para enxergar a porta quando, nesse momento, apareceu um homem que mais parecia um bombeiro. Era um bombeiro.
- Senhor, vamos cair fora daqui pois o bar está pegando fogo.
- Meu romance também. Daqui a pouco Madalena se suicida. Não posso parar agora.
- Senhor, isso é uma ordem. Tenho que tirá-lo daqui.
- Calma, calma…O filho dela nunca vai descobrir o motivo da mãe ter se atirado do primeiro andar do prédio e morrer eletrocutada.
- Bem, eu estou indo. Está muito quente aqui dentro e o fogo já está pegando na sua mesa.
- Vou terminar aqui e já vou. Por favor, me alcance mais uma dose de uísque. Não sei onde o garçom se meteu.
- Ok. Vai sem gelo pois o mesmo já derreteu.
- Obrigado. Pode apagar a luz. Não enxergo mais nada no meio dessa fumaça. Só a tragédia anunciada nesses pedaços de papéis.
Nisso o fogo foi tomando conta de tudo. Os capítulos queimaram e o poeta derreteu em meio ao seu romance londrino.